Casamento à distância: o que eu aprendi convivendo com meu marido em países diferentes

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Meu marido sempre sonhou em ter o próprio negócio e há dois anos iniciou o projeto de sua startup. Ele me explicou de todos os programas de aceleração, inclusive que alguns programas seriam fora do país.

O primeiro programa que ele foi aprovado era na nossa cidade. Foi uma boa conquista porque não tivemos que nos adaptar demais para que ele assumisse esse novo desafio.

Porém, no meio do ano passado, as inscrições para o Startup Chile abriram. O meu marido se inscreveu, mesmo com pouca esperança de ser aprovado. Estávamos com uma viagem de férias marcada para fevereiro, coincidentemente na mesma época de início do programa.

Eu havia conversado com ele, durante o ano, para adiar nossas férias e para ter “aquela conversa” difícil. Com o receio denão ser aprovado e gerar desgaste à toa, ele optou por adiar a conversa.

Até que, de fato, ele foi aprovado. Em uma quinta-feira na hora do almoço, em dezembro, recebi sua ligação, dizendo que havia sido aprovado. Metade de mim ficou absurdamente feliz pela sua conquista, mas a outra metade sabia que aquela seria uma fase difícil.

E aí começaram as discussões. Consequentemente, os aprendizados.

O que eu aprendi com o “chamado” do trabalho?

Bom, é claro que todo bom casal sabe que precisa conversar e alinhar as expectativas com antecedência, buscando a compreensão de todas as partes. Só que na prática, isso pode ser um pouco complicado.

Quando digo complicado, pode ser por medo ou receio de desgastar o relacionamento. Por mais que o casal tenha muita intimidade, decidir o trabalho no exterior pode ser uma tarefa árdua.

O motivo é simples: a parte que vai normalmente está indo realizar um sonho ou um desafio, que trará enorme crescimento profissional. Daí, temos dois cenários:

1. Se a parte que tem vontade de ir não for por causa do casamento, sempre ficará aquela pulga atrás na orelha e desconforto do tipo: “eu não pude ir porque estou casado(a)”. E sabemos que, por mais maduras que as pessoas sejam, esse tipo de dúvida fica no inconsciente.

2. A parte que ficar (seja por questões de trabalho ou de família) e não puder acompanhar quem vai, terá a sensação que vai impedir a realização um sonho por parte de seu (sua) parceiro(a). E casamento que visa crescimento de ambos também pede espaço para cada um trabalhar sua individualidade.

Para completar, se existe a vontade de realizar esse trabalho à distância, o melhor cenário seria permitir que isso acontecesse. Só que o casamento à distância pode ser algo mais complicado de se tragar para algumas pessoas.

Gerenciando conflitos de interesse

Eu sou do tipo que me casei acreditando que nunca precisaríamos nos distanciar por trabalho. Quando meu marido veio com a ideia de iniciar sua startup, imaginei que poderia acompanhá-lo, pois dificilmente encontraria um trabalho de carteira assinada que eu gostasse ao ponto de querer mantê-lo.

Indo mais a fundo, imaginei até mesmo que poderia empreender junto com meu marido. Dessa maneira, onde quer que a empresa nos “mandasse”, iríamos juntos.

Fato é que consegui um emprego com grande potencial de crescimento e estabilidade. Para completar, tenho toda flexibilidade de horários que preciso, o ambiente de trabalho é maravilhoso.

Com que coragem eu iria largar tudo para acompanhar meu marido em um período temporário fora? Um detalhe importante: os programas de aceleração normalmente ocorrem em um período determinado, que pode se estender para mais ou menos tempo. É uma incerteza grande quanto ao prazo certo, mas pelo menos não é definitivo.

Sendo assim, eu decidi que permaneceria no meu emprego, enquanto meu marido iria para fora.

Os problemas que vivenciamos

Posso listar alguns problemas que resolveríamos de outra maneira hoje. A forma como a mudança foi anunciada, por exemplo. Meu marido, ao invés de tomar a decisão em conjunto, definiu que iria e me comunicou.

Aquilo me deixou extremamente chateada, mas entendi que ele não queria correr o risco de perder aquela oportunidade. Atualmente, conversamos as possibilidades e limites antes de tomar a decisão.

Fica mais fácil identificar os limites um do outro, além de alinhar expectativas com clareza e evitar surpresas.

Outro problema foi de definir quem, quando e como iria viajar para ver um ao outro. Por causa do simples “comunicado” de mudança, eu achei que tinha autoridade para definir que, uma vez que foi meu marido que “saiu”, ele deveria vir me ver.

Só depois que percebi que ele não estava confortável com a situação. Primeiro porque da mesma forma que ele queria ter sua experiência, ele não queria me privar do crescimento em uma empresa tão boa quanto eu estava, só para ir com ele.

Segundo: o melhor cenário seria se ficássemos juntos, mas não era a melhor opção. Terceiro porque eu poderia ao menos tentar visitá-lo no Chile.

Combinamos então que todo mês nos veríamos, independente de quem fosse para onde. Eu arrisquei com meu diretor a possibilidade de trabalhar de home office a primeira semana de cada mês (mês sim, mês não), lá do Chile. O não, eu já tinha…

Para minha surpresa, recebi o sim: poderia trabalhar à distância para conseguir visitar meu marido. Como sempre mostrei trabalho, a empresa sabia que isso me deixaria mais motivada!

Sei que não são todas as pessoas que tem essa sorte, mas é importante ao menos tentar – seja tirando férias para visitar um ao outro ou aproveitando feriados prolongados.

Divisão de custos e despesas

Espera-se que quando uma empresa ou oportunidade vai demandar mudança de cidade, há uma possível melhoria de salário. Por causa disso, normalmente quem muda é o que arca com as despesas de transporte para se encontrarem.

Meu pai teve que morar em outra cidade durante 4 anos. Por mais que ele fizesse ponte aérea todo final de semana, ele pagava para viajar e ainda arcava com os custos para sua esposa visitá-lo. Querendo ou não, isso o sobrecarregou e deu a impressão que só ele estava investindo na manutenção do casamento.

Para aprender com a experiência, optamos por não imputar todos os custos só no meu marido. Como eu poderia vê-lo no Chile, definimos que eu pagaria pelas minhas passagens nos meses que eu iria, enquanto ele ficaria por conta de pagar por sua vinda.

Esse meio termo foi fundamental para entendermos que nós dois estamos investindo no sonho dele, e não é uma coisa que ele vai conquistar sozinho. Aí vem o sucesso do casamento.

Com relação às contas da casa, uma vez que ele decidiu, de última hora, que iria passar esses 7 meses fora, mantemos a divisão normal de contas, exceto pelo supermercado.

Tudo relacionado à casa, ele pagaria 50%, exatamente conforme antes de mudar. Afinal, ele ainda é responsável pela manutenção das nossas contas.

Essa foi a melhor maneira que encontramos para manter a mudança da forma mais natural possível e garantir que, mesmo à distância, os direitos e deveres do casamento fossem cumpridos sem ressentimentos!

A rotina do casamento à distância

Para não desgastar a comunicação, combinamos de nos falar por Whatsapp chamadas pelo em um horário determinado, com câmera.

Me pergunte se funcionou?

Essa foi a receita para o desastre. Como eu fiz de tudo – literalmente – para ajudar meu tempo a passar rápido, arrumei tantas atividades que me faziam sair de casa antes das sete da manhã e chegar depois de nove da noite.

Portanto, assim que eu chegava, só queria tomar banho e dormir. Arrumar um tempo determinado para nos falarmos durante o dia, foi um parto porque assim como eu, meu marido tinha reuniões atrás de reuniões.

Sem contar que, fora a exaustão da nossa rotina de atividades pesada, a qualidade da internet não colaborava para chamadas de video. O desgaste muitas vezes foi maior do que o prazer de conversar à noite.

Definimos então que sempre que tivéssemos vontade de conversar, ligaríamos, independente do horário. Se não podemos nos falar, mandamos mensagens e retornamos assim que possível.

Passamos também a enviar pequenos trechos de vídeo mostrando nossa casa, trabalho e mandando uma mensagem breve de como foi nosso dia.

Esse “diário” de atividades nos deixa tranquilos para a rotina um do outro e evita o estresse de combinar um horário de falar, que pode ser inviável.

Combinados devem ser feitos e precisam ser cumpridos

Um dos grandes desgastes do casamento à distância é referente à confiança de um parceiro com o outro. Um novo lugar, novas experiências e com certeza, muitos programas para se fazer.

Fa mesma maneira, do lado de quem fica, é provável que exista mais tempo para aproveitar com os amigos, que ficam em segundo plano normalmente após o casamento.

Alinhar as expectativas de programas a serem feitos é ideal para a confiança do casal. Se alguma das partes não se sente confortável com a outra saindo à noite com amigos, que os dois definam que esse programa não vai acontecer.

Devemos, sempre, buscar o bom senso, mesmo sem uma distância física entre o casal. Atividades da empresa, comemorações, aniversários de família e amigos próximos devem ser conversados e avisados para evitar surpresas.

Eu e meu marido compartilhamos nossa agenda do google e dessa maneira, sabemos a rotina dos dias de semana, quando um e o outro estão ocupados com reuniões, etc.

Com relação aos finais de semana, sempre nos falamos na sexta sobre quais os planos para manter as expectativas alinhadas. Procuramos sempre avisar quando vamos sair e quando vamos voltar.

Outro detalhe importante é que eu conheço as pessoas com as quais o meu marido mora e tenho contato de todos. Se por algum motivo não consigo falar com ele, posso ligar para os colegas de casa e ele, pode ligar, por exemplo, para meus pais.

Isso evita preocupações extras! Mesmo assim, não usamos aplicativos do tipo Find Me, pois acreditamos que eles são um grande desfavor à nossa confiança entre um e outro.

O resumo da história toda

Até hoje, o que eu aprendi é que:

  • Dá para manter um casamento à distância, contanto que o tempo seja pré-estabelecido antes da partida
  • As decisões devem ser comunicadas, principalmente quando uma das partes não se sente à vontade com o casamento à distância
  • A comunicação deve ser transparente e clara. Considero que questões de casamento à distância devem ser discutidas antes mesmo do casamento em si, para que um saiba a limitação do outro.
  • Sempre que possível, acompanhar o parceiro na nova jornada é uma boa opção. Mas existem casos e casos. Se não for possível, definir quando e como vão se ver e por qual período de tempo.
  • Definir, antes da partida, as contas, custos e despesas da casa onde moram e deslocamento com as viagens.

Esses combinados realmente ajudam a evitar brigas e discussões. E mesmo assim, se isso acontecer, lembrem-se que o fracasso de uma parceria a ddistância é dormir chateado um com o outro. Isso quebra a confiança. Deixem para resolver as pendências frente a frente, quando se encontrarem.

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Sobre a autora

Bela Guarino

Gerente de Inside Sales e Parcerias na Rock Content, formada em Relações Internacionais, mas já foi ninja, marketeira e até mesmo cosplayer. Teve seu 1º blog aos 12 anos e hoje gosta mesmo de Reiki e viajar por aí. Fã de carteirinha de Senhor dos Anéis e CardCaptor Sakura.

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